A solução que reside na eliminação da diferença: os Proscritos de Roma Parte II

Dentre eles, dois merecem destaque. O primeiro foi Marco Antônio, leal oficial de César que serviu com ele tanto na conquista da Gália (atual França e Bélgica) quanto na guerra civil que César travou após ela (ops, isso será assunto de um outro post...). A época dos Idos de Março, Marco Antônio ocupava o cargo de Cônsul (o mais alto e prestigiado cargo do Senado Romano, que detinha os maiores poderes), como parte de sua recompensa pelos longos anos a serviço de César. Quando soube de seu assassinato, Marco Antônio foi suficientemente inteligente para propor um acordo aos libertadores: todos aqueles que participaram do tiranicídio de César seriam anistiados e, em troca, todas as ações que César havia feito tanto em vida quanto havia deixado em testamento seriam ratificadas, ou seja, não seriam anuladas.

Sem tropas próprias ou apoio entre a população romana, os libertadores haviam aceitado o acordo proposto por Marco Antônio, que além da força conferida pelo cargo de Cônsul também havia conseguido trazer para o seu lado a maior parte dos veteranos de César com promessas de vultuosas recompensas. Após este evento, concordou-se que deveria haver um funeral público para César, onde Marco Antônio e Brutus fariam um discurso em conjunto para mostrar (ao menos superficialmente) unidade da classe politica romana. Foi lá onde Marco Antônio, após esperar pacientemente, deu seu mais duro golpe contra os libertadores.

Em seu discurso, que contava com a participação massiva da plebe para se despedir de César, visto por eles como um herói, Marco Antônio, além de citar os inúmeros feitos de César para a plebe e ter detalhado as doações que César havia deixado para está classe social em seu testamento, havia pego a toga ensanguentada de César e a atirou para a multidão. Impactados por aquele gesto e ainda com ódio da elite romana que havia os privado de seu herói, a multidão iniciou um tumulto. As casas de vários integrantes dos libertadores haviam sido queimadas, bem como edifícios do Fórum Romano. Muitos dos conspiradores haviam fugido da Itália, temendo serem linchados pela plebe. Sobre o pretexto de não ser capaz de garantir sua segurança, Marco Antônio ordenou que Brutus e Cássio fossem enviados em uma “missão” para fiscalizar grãos nas províncias orientais (que hoje correspondem as modernas Grécia; Líbia; Turquia e Síria), e esses, sem escolha devido aos tumultos de Roma e temendo pelas suas vidas, foram forçados a aceitar a “missão” que consistia no exilio de ambos da cidade, constituindo uma grande vitória para Marco Antônio.

O segundo herdeiro de César que também merece destaque foi Caio Otávio, um jovem patrício de 19 anos, que embora fosse até o presente momento sobrinho-neto de César, havia sido formalmente adotado por este em seu testamento, bem como recebeu todas as demais propriedades de César assim como o dinheiro que não estava comprometido com a plebe. Após aceitar a adoção póstuma, Caio Otávio tornou-se Caio Otávio César. Com o nome e o dinheiro em mãos, Otávio não tardou em começar a construir seu poder, seja vendendo várias das propriedades de César a fim de conseguir mais dinheiro, seja utilizando este dinheiro tanto para ganhar as graças da plebe quanto para recrutar veteranos de César para formar um exército privado (que, embora ilegal pelas leis romanas, acabou se tornando fato consumado), ação essa que não era bem vista por Marco Antônio, que via no jovem um estorvo assim como um rival em sua posição como líder do partido cesariano, uma vez que a afeição do povo estava sendo direcionada a Otavio, já que ele era o filho legal de César, enquanto que Marco Antônio era apenas um braço direito de César em vida.

Apesar da relação entre Marco Antônio e Otávio ter começado com o pé esquerdo (chegando ao ponto dos dois terem travado uma batalha no Norte da Itália), não demoraram muito para chegar a um acordo. As legiões (a forma em que os romanos se referiam aos exércitos) desses dois eram compostas por homens que tinham servido com Júlio César, e que não tinham vontade alguma de guerrear entre si, além de terem se mantido fieis a sua memória e hostis aos seus assassinos. Para além da vontade dos legionários, Brutos e Cássio haviam conseguido formar várias legiões no oriente ao qual foram exilados, e estavam dispostos a regressar para Roma e lutar contra os herdeiros de César.

Sobre este contexto, no final de Outubro de 43 A.C no Norte da Itália, Marco Antônio e Otávio se encontraram, e junto com Marco Emílio Lépido (uma figura menor), formaram o Segundo Triunvirato, onde concordaram em partilhar o poder supremo que só era concedido a um ditador (que no contexto romano, tinha um significado diferente ao do ditador moderno). Os três regressaram para Roma, onde em 27 de novembro do mesmo ano uma Assembleia Popular ratificou o triunvirato. O tabuleiro estava montando e as peças se moviam, tudo levava a uma grande batalha entre os herdeiros de César e seus assassinos pelo controle absoluto de Roma, o que, para eles, correspondia ao mundo.

Porém, nesse confronto iminente, havia três dificuldades para o Segundo Triunvirato: os cofres públicos de Roma estavam vazios após tantos anos de instabilidade, sendo que esperavam obter o dinheiro necessário para pagar os legionários que lutariam, pois tanto Otávio quanto Marco Antônio estavam exauridos após tantas recompensas pagas pela lealdade dos veteranos de César; Brutos e Cássio ainda possuíam vários apoiadores em Roma, que com certeza fariam tudo o que estivesse em seu alcance para ajuda-los a derrotar os triúnviros; por fim, muitos integrantes da plebe ainda culpavam os três por nunca terem vingado César em todos os anos que se passaram após seu assassinato. Tendo em conta esses desafios, Otávio; Marco Antônio e Lépido encontraram uma forma de resolver os três problemas ao mesmo tempo: elaboraram um decreto de proscrição.

( CONTINUA NA PARTE III)

1 Comentarios "A solução que reside na eliminação da diferença: os Proscritos de Roma Parte II"

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excelente rigor histórico, em texto e agradável de ler.