BREVES ANOTAÇÕES SOBRE O AFEGANISTÃO

 


O “WAHHABI/SALAFI” (faço nota que muitos “salafistas” não gostam do termo wahhabista por entenderem depreciativo), doutrina radical islâmica bastante popular em países como Arábia Saudita e Paquistão, seguida por grupos como o Talibã e que teve seu maior expoente na figura de Osama Bin Laden, surgiu no séc. XIX, como uma resposta aos governos islâmicos (principalmente o otomano) que se abriam para a influência política, econômica e cultural do ocidente. Os seguidores dessa corrente enxergam a civilização ocidental como decadente, insaciável em sua ganância e opressora ao extremo, e então pretendiam impor em seus países de origem, o “Islã purificado” aos Estados e regimes muçulmanos que se “corromperam”.


Samuel Huntington, cientista político dos Estados Unidos, chegou a comparar o Wahhabi-salafismo com o protestantismo, já que ambos estavam insatisfeitos com a corrupção e negligência de seus então líderes e desejavam a mudança, sendo uma resposta a estagnação e corrupção existentes nas instituições de suas sociedades, desejando retornar a forma mais pura e exigente de sua fé.

O talibã pretendia, com seu plano original, recriar a sociedade existente na Arábia do Século VII (ou século I segundo o calendário islâmico). Essa utopia exigia obviamente uma série de limitações e restrições a ideias e conceitos modernos, principalmente para com as mulheres, já que lhes seria proibido estudar ou trabalhar, bem como sair de casa sem um bom motivo e de modo muito estrito, assim como não deveriam escutar música ou dedicar-se a arte. O fundamentalismo islâmico, tanto sunita quanto xiita e principalmente o Wahhabi-salafista, se tornou complementarmente antagônico e incompatível a civilização ocidental/capitalista, uma vez que, por razões religiosas, desprezava a introdução de hábitos ocidentais bem como seus produtos industriais tais como o audiovisual, moda, bebidas e serviços financeiros taxados como profanos.

Em 1996, os estrategistas dos Estados Unidos acreditavam que seria bom para seus interesses se o Talibã assumisse o Afeganistão, tanto para enfraquecer o Irã (já que tal grupo enxergava o governo dos Aiatolás como “hereges imundos”) assim como planejavam construir grandes gasodutos que ligassem os Estados da Ásia Central (Cazaquistão, Turcomenistão, Uzbequistão, Tajiquistão e Quirquistão) aos portos do Paquistão, de onde podiam escoar o petróleo e o gás natural presentes na Região, e de quebra, enfraquecer a posição da já debilitada Rússia dos anos 90. Com o apoio dos Estados Unidos, o Talibã assumiu o poder no Afeganistão no ano de 1996, com a conquista de Cabul.

Mas as relações logo desandaram. Os Estados Unidos, que ingenuamente acreditavam (e ainda acreditam) que os fundamentalistas islâmicos pudessem servi-los, depararam-se com a total intransigência do Talibã em realizar tais gasodutos. Isso futuramente levou a invasão ocidental do Afeganistão em 2001 para finalmente iniciar a construção de ditos gasodutos, sob a desculpa do Talibã ter dado suporte logístico e financeiro a Osama Bin Laden, que segundo alegavam, teria acabado de derrubar as Torres Gêmeas. 20 anos depois, os Estados Unidos e seus aliados conseguiram basicamente nada com coisa nenhuma: nenhum gasoduto foi construído, o Afeganistão não foi estabilizado e o Talibã ainda permanência em uma posição muito forte no norte do País.

Não é de se estranhar que Joe Biden, cansado dos gastos inúteis em uma guerra impossível (não custa lembrar que o Afeganistão é conhecido como “cemitério de impérios”), bem como a morte constante de soldados estadunidenses, decidiu simplesmente remover suas forças do País, provavelmente para usar esses recursos em cenários que seus assessores idealizaram contra a China. Deve-se lembrar que, desde janeiro de 2021, tramitam no Congresso Americano, projetos de lei, verdadeiras reservas de orçamento para o desenvolvimento do parque tecnológico dos EUA e retomada da indústria tecnológica que não poderia mais, por questão de soberania, estarem as fábricas localizadas em países da Ásia.

Vale apontar que, desde setembro de 2020, as forças da OTAN iniciaram a retirada das tropas do Afeganistão.

A retirada inevitavelmente levou o Talibã a uma rápida guerra de reconquista (reconquista, porque eles foram expulsos pelos ocidentais em 2001).

Inicialmente os especialistas militares disseram que levaria de 6 meses a 1 ano para que o Talibã tomasse Cabul, mas as recentes vitórias do grupo e a fuga do exército afegão treinado pelos Estados Unidos e pela Otan fizeram com que as previsões fossem revistas para que levasse 1 ou 3 meses para a conquista da capital. No final das contas, levou apenas uma semana. O presidente afegão, Ashraf Ghani, fugiu do País em 15/08/21, renunciando ao cargo enquanto os militantes do grupo entravam na capital. Após 25 anos, Cabul pertence ao Talibã novamente. Os desdobramentos disso? Só o tempo nos dirá...

 

DEMETRIUS SILVA MATOS

Bacharel em Direito pela UNDB
Pós Graduado em Ciências Políticas pela Uninter
Autor do livro: "Direito na Ditadura - o uso das leis e do direito durante a ditadura militar"
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FONTE: “Formação do Império Americano - da guerra contra a Espanha à Guerra contra o Iraque” (Luiz Alberto Moniz Bandeira)



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