As consequências de se ignorar um bom conselho: o desastre cruzado dos Cornos de Hattin. (PARTE I)

julho 26, 2000 0


O que é um conselho? Segundo o dicionário, conselho significa uma opinião ou um aviso que se dá a alguém, ou seja, um tipo de alerta que uma pessoa sensata, com mais experiência ou conhecimento sobre um determinado assunto, faz a outra que tenta realizar alguma ação com probabilidade de consequências desagradáveis ou não.
Quase todas as pessoas, ao longo da vida, já deram ou receberam conselhos   sejam de pais, professores ou de amigos. Os conselhos podem ser entendidos como bons ou ruins. E isso dependerá tanto de quem deu o conselho quanto do contexto em que este será utilizado. Por isso que, ao se receber um conselho, se têm duas escolhas: ou acatá-lo ou ignorá-lo. Dessa forma, assim como acatar um mau conselho pode levar a uma tragédia (para si ou para aqueles que estão ao seu redor), ignorar um bom conselho também pode conduzir a uma calamidade semelhante. 

Hoje veremos a história de como, ao se ignorar um bom conselho, conduziu-se um exército inteiro à morte e quase um reino (considerado sacro por alguns e maldito por outros) ao seu fim prematuro.

No ano de 1186, era sensato afirmar que ser um súdito do Reino de Jerusalém exigia uma grande dose de auto-sacrifício e coragem, pois os desafios apresentados pareciam imensuráveis e intransponíveis, tanto externa quanto internamente. Os diversos territórios islâmicos independentes que antes faziam fronteira com o Reino (fundado no ano de 1099 durante a primeira cruzada, ocupando o que hoje corresponde à Palestina, Israel, Líbano e parte da Síria)  estavam agora unificados  sob o comando de um único homem: Salah ad-Din, mais conhecido no ocidente como Saladino, um homem inteligente e extremamente astuto, um grande líder militar e invejável administrador, que apresentou a maior ameaça ao Reino cristão no Oriente Médio desde a sua fundação, pois não seriam mais diversos soberanos islâmicos com suas próprias inimizades (que diversas vezes combatiam, mais uns com os outros do que contra os “invasores” cristãos), mas sim um Sultanato unificado que não malograria esforços em destruir o Reino cristão, visto como infiel para aquele povo.

A principal defesa do Reino contra esse vizinho hostil e poderoso recaía tanto no exército de Jerusalém quanto sobre as ordens militares religiosas, criadas pela ordem Papal, para auxiliar na defesa do assim chamado Reino de Cristo, sendo elas: a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários e a Ordem dos Cavaleiros Templários. Devido a fatores populacionais, as forças cristãs estavam sempre em desvantagem numérica quando em comparação às islâmicas. Portanto, perder um cavaleiro ou até mesmo um soldado, em batalha, correspondia, por si só, a uma pequena tragédia, pois seria um defensor a menos para o Reino, sempre em constante cerco que, dificilmente, poderia ser substituído, circunstância esta que não preocupava as forças de Saladino.

 Para além do inimigo externo islâmico, os cristãos da Terra Santa também possuíam diversas rixas e rivalidades, entre eles próprios,  pelos mais diversos motivos. Era praticamente impossível fazer um cavaleiro templário colaborar, ao menos com boa vontade, com um hospitalário. Tais diferenças mesquinhas também existiam entre os nobres (que governavam os castelos e principados e que compunham o Reino) que diversas vezes davam prioridade a suas ambições e ganâncias pessoais, mesmo que às custas dos territórios que, em tese, defendiam.

Dos nobres do Reino de Jerusalém, o mais ganancioso de todos era um francês chamado Reinaldo de Châtillon, cujo currículo incluía todo tipo de atrocidades  e infidelidades possíveis, que iam desde o saque indiscriminado da rica província Bizantina do Chipre – o que ocasionou uma mácula quase irreparável entre os cristãos gregos e latinos, então, aliados –, passando pelas constantes quebras de tréguas feitas pelo Rei de Jerusalém com Saladino (ao saquear os mercadores islâmicos que passavam próximo ao seu território, o que abalou consideravelmente a diplomacia que os cristãos tentava manter com os muçulmanos), chegando à campanha de pilhagem pelo Mar Vermelho, através das rotas que levavam peregrinos muçulmanos a Meca e Medina, culminando com o afundamento de um navio cheio de peregrinos, matando todos.

 Esta última ação atraiu para ele a ira imperdoável de Saladino e de todo o Islã. Reinaldo de Châtillon sempre escapou impune de todas as suas ações, mas o “Carma” não demoraria muito a ser cobrado.

No final de 1186, como se fosse a vontade do destino, uma enorme e extraordinária caravana islâmica, com destino à cidade de Damasco, estava próxima ao castelo cruzado de Kerak e não esperava ser atacada, uma vez que estava em vigor uma trégua de quatro anos entre os cristãos e os muçulmanos. Esse castelo pertencia a ninguém menos que Reinaldo de Châtillon que, como já podem esperar, simplesmente não resistiu à tentação de obter lucro fácil. Ele e seus soldados deliberadamente romperam a trégua e se lançaram sobre a caravana. Os que não morreram imediatamente foram aprisionados para serem vendidos como escravos (um destino comum tanto a cristãos quanto a muçulmanos capturados naquela época em que não se esperava obter um resgate). Reinaldo, então, conduziu a pilhagem de volta a seu castelo, em completo êxtase.

Saladino, que não se encontrava nem um pouco feliz com a ruptura deliberada da trégua, ficou ainda mais furioso quando soube que ela fora feita por Reinaldo de Châtillon, o homem que já havia quebrado tantas outras tréguas no passado e o que ele mais odiava de toda a cristandade. Apesar deste grave insulto, Saladino ainda tentou a diplomacia, ao enviar emissários a Kerak, a fim de exigir que os prisioneiros islâmicos fossem libertados e o produto do saque, praticado por Reinaldo, fosse devolvido. O nobre cristão os ignorou por completo, fazendo com que os emissários fossem ter uma audiência com o Rei de Jerusalém, Guy de Lusignam, onde residia outro problema.
Guy de Lusignam era Rei de Jerusalém apenas em função de seu casamento com a irmã do Rei anterior (Sibila, irmã do antigo Rei Balduíno IV), o que não lhe provia autoridade própria. Além do que grande parte dos Barões da Terra Santa não o respeitavam, visto que ele se mostrou um homem fraco e sem iniciativa em diversas ocasiões. Guy e sua esposa só alcançaram o trono devido a um esquema político ilícito (ele ignorou a vontade de Balduíno IV, expressa em seu testamento, que o excluía explicitamente da sucessão real), esquema este referendado tanto pelos Cavaleiros Templários quanto por alguns outros nobres, dentre eles Reinaldo de Châtillon. Embora o Rei Guy tenha concordado com os emissários de Saladino e exigido que Reinaldo cumprisse o pedido de Sultão, este novamente fez-se de surdo, uma vez que estava confiante que Guy não poderia exigir nada dele, tendo em conta o apoio que este lhe deu para se tornar Rei de Jerusalém. Após o fracasso da diplomacia, não havia outra escolha: o Reino de Jerusalém estava novamente em guerra contra Saladino.(...)
(Continua na Parte II)
Demetrius Silva Matos

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